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28 de dez de 2011

Filme: Noite de Ano Novo

Fui no cinema hoje. Por dois motivos, o primeiro foi pra fugir do transito, e o segundo foi porque queria muito ver esse filme. Confesso que a razão de eu querer ver esse filme é porque a Lea Michele, (Rachel, para os Gleeks como eu) faz par com o Ashton Kutcher. Ela estava no filme, e queria muito vê-la como atriz, fazendo outro papel que não da Rachel. Nisso, eu me decepcionei um pouco. Apesar da personagem já ser adulta, ter feito faculdade, me pareceu um pouco como o futuro da Rachel. Fez Julliard, aprendeu a cantar, e agora busca o sucesso fazendo back vocal para um cantor famoso. Obviamente, ela canta no filme, inclusive faz um dueto lindo com o Bon Jovi (logo, seu argumento é invalido), canta de back vocal e finaliza com o solo. Mas como eu sou apaixonada por Glee...
Mas continuando sobre o filme, Noite de Ano Novo tem a mesma proposta que o filme 'Valentine's Day' (Idas e Vindas do Amor em português), ou seja, são várias histórias, de alguma forma conectadas, que acontecem em um dia, no caso, no dia 31 de dezembro.
Foi interessante ver o Zac Efron, pra mim eternamente com 17 anos fazendo High School Music, dando uma bitoca na Michelle Pfeiffer, esta em seu papel mais 'patético' (no melhor sentido da palava). Foi legal ver o Jake T. Austin - o Max de 'Feiticeiros de Waverly Place' em um personagem bem diferente - e ele me convenceu. Robert de Niro como um paciente a beira da morte... Enfim, muitos atores conhecidos estão nesse filme.
Quando falamos desse tipo de filme, não tire conclusão precipitadas. O roteiro e edição são tão bem feitos que achamos que dois personagens são um casal, e na hora H, não são... As coisas mudam e surpreendem. As histórias se conectam da maneira mais estranha.
Em comum elas tem o lugar - todas se passam em Nova York, no mesmo dia - véspera de ano novo, e na grande festa da virada que acontece em NY, que consiste na maça descendo o mastro. (sinceramente, nossos fogos em Copacabana são mais interessantes que aquela bola!). O filme fala sobre tradição, sonhos, esperanças de um futuro melhor... o ano novo é o momento de renovar a esperança, um momento de realizar seus feitos, de fazer as coisas acontecerem. Fazia muito tempo que eu não lembrava desse tipo de esperança... foi bom ver que ela ainda existe! Pega a lista de promessas do ano passado. Ainda dá tempo!
Por isso, aconselho a todos que vejam esse filme antes de 2012.
Obs. A parte que mais gostei com certeza foi o final, com a música da Pink - Raise your Glass ( que aliais, já virou musica clichê final de todos os filmes comédias românticas, né?) e passando as cenas erros de gravação, cenas "o que poderia ter sido". Ficou muito bem editado, muito bem feito.

25 de dez de 2011

Livro: Férias

Eu já tinha lido esse livro há algum tempo. Me marcou tanto que quis reler, como acontece com praticamente todos os livros da Marian Keyes.
Nesse livro a autora volta a 'família original' - isto é, no primeiro livro dela que fez sucesso, o Melancia, ela nos apresentou a família Walsh, constituída de um pai, uma mãe e 5 irmãs. O primeiro romance foi sobre a filha mais velha da família. Férias é sobre a filha do meio. Tipo, do meio mesmo, ela é a terceira. Tem duas irmãs mais novas e duas mais velhas.
Bom, como todos os personagens dessa autora, ela tem a origem irlandesa, porém mora fora do país há algum tempo, no caso, New York. Alguma coisa acontece, e ela se vê obrigada a voltar ao seu país de origem. 
No caso, Rachel, nossa personagem, é internada em uma clínica de reabilitação na Irlanda, depois de sofrer uma overdose e ser levada ao hospital para uma lavagem estomacal. A personagem principal é toxicomana, porém dentre os personagens satélites, temos muitos alcoólatras, alguns comedores compulsivos, enfim uma série de vícios. Por isso, acho esse livro uma quase aula de psicologia. Tem os estágios para lidar com o vício, como agir uma vez que você está desintoxicada, etc etc etc...
Já tinha lido esse livro há algum tempo atrás, e gostei muito. Devo ter emprestado para alguém que nunca me devolveu, porque minha edição normal, grande, sumiu. Assim, como queria muito reler, acabei comprando a versão de bolso. Mas ainda acho que falta alguma coisa nessa versão... ou na minha memória eu tinha criado um livro muito mais complexo que ele realmente é - mas isso não tira o mérito do livro. Ainda gosto muito dele. 
Uma das partes que mais gosto nesse livro é no final, quando Rachel, após todo o tratamento, está pensando no que fazer da vida. Tem 28 anos, nunca fez faculdade, nem nada do gênero, trabalhou como arrumadeira em hotéis de quinta categoria a vida toda. Até antes de se assumir dependente e fazer o tratamento, vivia para conseguir mais drogas, agora o que fazer? Então a madrinha dela, também uma dependente em recuperação, pergunta:

" - Que tal voltar a estudar? Talvez fazer um curso universitário quando você souber o que quer fazer.
- Um curso universitário? - Rachel ficou horrorizada - Mas levaria muito tempo. Quatro anos, talvez. A essa altura eu já estaria com 32 anos. Caquética!
- Mas um dia você vai ter 32 anos mesmo"

É uma forma bem discreta de falar, a vida não vai parar, está sempre pra frente e você vai chegar aos 32 anos... pode chegar se formando em um curso universitário, seguindo em frente, ou pode chegar lá com o mesmo emprego de camareira, com salário de fome, que ela já tinha até então. Acho que isso serve para todo mundo pensar um pouco. 
Mesmo não tendo problemas tão graves quanto os descritos no livro, ele me faz pensar nos meus próprios vícios, nas coisas erradas que escondo de mim mesma.
É um livro que aconselho a todos! Como aconselho qualquer livro da Marian Keyes!

18 de dez de 2011

Série: Neverland

O canal Syfy resolveu lançar algumas miniséries, de 2 episódios de 1 hora e 20 min cada. 
A primeira que peguei para ver foi essa, chamada Neverland, e com o enredo sobre o Peter Pan. Só de saber que é relacionado com esse conto de fada, já imaginei que iria gostar, apesar de minhas experiencias não tão boas com esse canal - que como o próprio nome já diz, a maioria de suas séries são histórias de ficção científica, e eu não sou muito fã dessa área...
Mas enfim, a história é linda!! Estou apaixonada e quero muito que eles continuem com a série!

Bom, falando um pouco sobre Neverland, a história explica como Peter chegou na Terra do Nunca, porque ali ninguém cresce/envelhece, porque existem piratas e índios naquelas terras... e algumas das explicações são bem científicas...
Nos mostra como o Capitão Gancho virou o capitão Gancho, a luta em que perdeu a mão, como ele era o mentor do Peter, e como o decepcionou. Quem são os meninos perdidos, porque eles foram para lá, como tudo começou! Quem é a sininho, e as fadas do mundo (que aliais, tem homens também!), porque Peter pode voar sem o pó mágico das fadas...
Enfim, a série conta a história antes do conto. Antes da Wendy e dos irmãos. 

Não preciso nem dizer que estou completamente apaixonada!
Eles contaram tudo muito bem, fechando o ciclo, sem deixar pontas soltas. As imagens estão muito bonitas, e a Terra do Nunca está mais fantástica do que jamais esteve.
Os atores escolhidos, Peter e Jimmy, são ótimos na sua interpretação... toda a história está bem contata e bem feita.

Um ótimo passatempo para esses dias de férias!

16 de dez de 2011

Série: Mad Men

É uma série da AMC que se passa nos anos 60. Conta a história de uma agência de publicidade em plena Manhattan, NY. Logo, se você pretende fazer ou faz publicidade é uma boa série para ver.
Até hoje foram 4 temporadas, cada uma com 13 episódio de 50 minutos.
Dentre os personagens, temos o protagonista, o Direto de Criação da empresa. Don Draper, com um passado obscuro que vai se revelando ao longo das temporadas. No primeiro episódio, nos parece que ele é um solteiro inveterado, mas logo ao final do mesmo episódio, eis que surge uma família.
A mulher dele, Betty, é bem chatinha. A única coisa que achei interessante nela foi reparar o estilo de vida. As roupas, sapatos, os móveis da cozinha são coisas que reconheço bastante da minha avó. Assim, fico pensando que ela seria como minha avó, jovem, com dois filhos, em pleno anos 60.
Outra personagem que gosto muito é a Peggy. Ela começa a série como a secretária do Don, afinal, mulher naquela época só trabalhava nessa função. Ela parece ser uma caipira, com aspirações religiosas, mas logo no final do primeiro episódio ela já fica com um cara comprometido. E assim continua durante toda a série. Ela mesmo fala muitas vezes para diversas pessoas "vocês não me conhecem, nunca se preocuparam em saber quem eu sou, logo não venha me dizer o que fazer". E nessa ela foi subindo pela empresa, e logo passa a ser o braço direito da criação, de Don. Ela está sempre nos surpreendendo, e confesso que gosto muito dos episódios que ela interage com o protagonista. Acredito que ela seja a única pessoa que bate de frente com ele, que pede o que quer - às vezes não dá muito certo, mas é sempre interessante.
Como Don é um personagem bastante complexo, vale prestar atenção nos momentos de família. As crianças, que percebemos que foram crescendo ao longo da série, sempre que aparecem mostram uma outra cara ao personagem. Sally, a filha mais velha, é a que mais aparece. É uma menina relativamente mimada, mas que sempre foi meia deixada de lado. Parece ter bastante medo da mãe, Betty. Volta e meia as crianças são jogada pro canto, e uma das frases bem comuns é "vai assistir televisão"... ou seja, era uma forma de deixar as crianças quietas e não ter que se preocupar...
Na firma percebemos as áreas de uma empresa de publicidade bem aos moldes do que temos hoje em dia - ou pelo menos assim me parece. Temos os homens responsáveis pelas contas, ou seja, o atendimento. Responsável por conhecer o cliente, trazer pra empresa, manter o cliente satisfeito. Fazer a ponte criação - cliente. Temos o departamento de televisão - cargo criado no meio da segunda temporada, por um personagens coadjuvantes. E várias outras funções que eu não reconheço ainda...
Confesso que os primeiros episódios da série, achei bem chatinhos, mas depois foi ficando cada vez mais interessante e a quarta temporada está realmente boa.
Se você está procurando uma série para assistir nessas férias, super recomendo essa!

7 de dez de 2011

[Trabalho da ECO] Rio - a marca registrada do Brasil


O governo do estado do Rio de Janeiro está realizando uma campanha para aumentar o sentimento do carioca para com a cidade, que se vê diante de grandes desafios como a Copa do mundo em 2014 e as olimpíadas em 2016.
Uma parte da população acredita que a cidade não tem a capacidade para receber eventos de tal porte como os citados, e para mostrar ao Brasil, e principalmente aos cariocas, foi lançada essa campanha.
Ela consiste em pôsteres que são colocados em revistas e jornais e a identidade visual das imagens se dá principalmente pelo RJ dentro do círculo em cima das palavra base, além do símbolo do governo do estado no canto inferior direito.
Valores do Rio são expressos em palavras únicas: Paz, Alegria, Inovação, Paixão.” - site oficial do governo:
No caso das duas artes selecionadas para serem analisadas nesse trabalho, as palavras escolhidas foram Inovação e Beleza.
Para analisarmos o gênero do discurso presente nessas duas peças publicitárias precisamos entender que uma palavra pode ser um verdadeiro enunciado carregado de sentido. Analisando as peças, percebemos que estas são detalhes de lugares conhecidos e famosos no estado. Percebemos a presença da cor azul. A palavra, que gera significado a imagem e a transforma na propaganda do governo tem a ver com a idéia já existente no local.
Prestando atenção nas artes apresentadas, a palavra inovação está conectada com o Museu de Arte Moderna, em Niterói. A arquitetura do local, parecida com uma nave espacial, que em si já é um símbolo de inovação nacional, mas, além disso, a arte exposta ali também é uma arte moderna, futurista que poucas pessoas entendem. É um local de inovação, um local do futuro, e com essa propaganda, é fluminense, pertence a nós, o estado que irá sediar dois eventos enormes. E nós podemos, porque temos um lugar que é uma fonte de inspiração para a inovação do país.
Já a segunda palavra, Beleza, está conectada com o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que fica com toda sua imponência no centro da cidade, virado para a Cinelândia. Mas não é todo o teatro que é mostrado na peça. São os detalhes: a cúpula verde, impressões nas paredes e o ouro finalizando a arte. Nisso percebemos a reforma que houve no local, mantendo a história e o tornando de grande beleza. A propaganda nos convida a ir conhecer o Municipal.
Esses dois locais não foram escolhidos por acaso para essa série. Ambos fazem parte do habitus do morador do estado do RJ e são automaticamente reconhecidos pelo público alvo. São opostos em muitos sentidos e com isso representam a diversidade que existe Rio.  São considerados eternos por qualquer morador e as imagens são quase clichês, são atemporais. Ninguém imagina a Cinelândia antes do Municipal, nem Niterói sem seu museu. São fotos documentais, paisagísticas, artísticas. Têm as cores do estado, o céu está sempre azul com poucas nuvens. Desde que esse espaço é conhecido como Rio de Janeiro, essa arquitetura está presente.
Quando olhamos essas propagandas e nos deixamos levar pela proposta esquecemos-nos de todos os problemas que o estado sofre. Não pensamos nos engarrafamentos, na violência, na poluição. Vemos a beleza, a inovação e só isso. Percebemos um futuro brilhante e colorido. A cidade vira um Mythos. Temos orgulho de pertencer. Contamos-nos histórias sobre os locais, algumas pessoas criam suas próprias narrativas.
Ninguém lembra que até pouco tempo atrás o teatro municipal estava caindo aos pedaços por falta de cuidado. Precisou de uma reforma gigante para tornar o símbolo hoje usado pelo governo para ilustrar suas propagandas. Provavelmente a escolha desse prédio em vez do prédio da biblioteca municipal – ao lado do teatro, da mesma época e com a mesma arquitetura – se dá justamente porque houve uma reforma. O estado gastou dinheiro no local, e agora quer usá-lo para gerar esse sentimento de carioca. A notícia já estava lá, foi apenas re-apropriada para esta série.
A idéia dessas obras é fazer a população do Rio consumir a sua cidade. Temos orgulho de pertencer, compramos essa idéia, afinal isso ainda é uma série de propagandas do governo “cujo intuito da campanha é engajar a sociedade fluminense no novo momento que o Estado vivencia.”
Morar no estado passa a ser legal. O Brasil será representado pelo estado. Nós, cariocas e todos os moradores da cidade, até depois de 2015 somos a cara do Brasil para o mundo e consumimos a cidade, o teatro municipal e o MAM como parte de nós mesmo.
Concluímos dessa análise que as propagandas criadas pelo governo têm uma grande eficácia no seu enquadramento e no gênero proposto. O uso de apenas uma palavra, associada à imagem, e no caso a arquitetura, torna possível para qualquer pessoa que conheça minimamente a história do estado se sentir parte. É o passado e o presente, a memória e o moderno, colocados lado a lado. É um discurso simples, direto que qualquer pessoa entende. É um sentimento, uma história, presente em apenas uma palavra associada a uma imagem.

Bibliografia:
·         http://www.ioerj.com.br/portal/modules/news/article.php?storyid=231 acessado dia 06 dezembro 2011
·         http://www.ioerj.com.br/portal/modules/news/article.php?storyid=256 acessado dia 06 de dezembro de 2011-12-06
·         Canclini, Néstor Garcia. O consumo serve para pensar. In Consumidores e Cidadãos. Rio de Janeiro: UFRJ, 1995, pags. 51-70 [#, §].
·         Lopes, Maria Immacolata Vassallo de. Mediações na recepção: um estudo brasileiro dentro das tendências internacionais. Artigo apresentado no Congresso da Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación, 1999
·         Motta, Luiz Gonzaga. Para uma antropologia da notícia. Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, Vol. XXV, nº 2, julho/dezembro de 2002, pags. 11-41.
·         Antunes, Elton. Enquadramento: considerações em torno de perspectivas temporais para a notícia. Revista Galáxia, São Paulo, n. 18, pags. 85-99, dez. 2009

·         BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. In: BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 1995. p.277-289.

6 de dez de 2011

[Trabalho da ECO] Filme: Cidadão Boilesen


Título original: Cidadão Boilesen
Lançamento: 2009 (Brasil)
Direção: Chaim Litewski
Duração: 92 min
Gênero: Documentário

‘Cidadão Boilesen’ é um documentário que se utiliza de diversas técnicas audiovisuais desenvolvidas ao longo da história do cinema. Há imagens de arquivo, documentos com voz over ressaltando as partes relevantes ao documentário, além de entrevistas com jornalistas, militares, políticos, familiares, amigos e pessoas que de alguma forma participaram da vida do personagem principal, o já falecido Henning Albert Boilesen. Pode-se dizer que as entrevistas geram a verdadeira cara do documentário, com a presença de informações aparentemente contraditórias quanto ao caráter de Henning. De um lado temos o depoimento do filho – Henning Boilesen Jr. – que ainda acha que o pai é um herói e toda essa história é uma grande ficção, em seguida temos o depoimento do Carlos Eugênio da Paz, que foi militante do MRT e conta como fez parte dos planos de execução do empresário. Usando os subgêneros dentro do documentário exemplificado por Bill Nichols, o classificamos como um documentário participativo. O filme quer mostrar uma perspectiva mais ampla e histórica e para isso usa a entrevista. “A entrevista permite que o cineasta se dirija formalmente às pessoas que aparecem no filme em vez de dirigir-se ao público por comentário com voz-over. No documentário participativo, a entrevista representa uma das formas mais comuns de encontro entre cineasta e tema.” (NICHOLS, Introdução ao Documentário, 2006).
O diretor desse filme foi Chaim Litewski, que em entrevista ao site ‘cineclick.com.br’ conta que já conhecia os rumores sobre o Henning desde 1968, quando o viu em entrevista na extinta TV Tupi, e o mesmo o intrigou de tal forma que continuou pesquisando ao longo dos anos. A idéia inicial era escrever um livro, porém este já havia sido lançado na Dinamarca – país de origem do Boilesen – resolveu continuar pesquisando e criar um documentário, pois sempre achou essa história muito parecida com ficção. Ele conta ainda que o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ulstra se recusou a gravar uma entrevista, e se disponibilizou apenas a responder as perguntas e enviá-las. Como essa foi a primeira vez que o Coronel deu um depoimento sobre a Operação Bandeirante e falou sobre o Boilesen, o diretor quis usar a entrevista, então pediu a outra pessoa para ler as respostas e acrescentou ao filme.
Chaim Litewski conclui a entrevista falando: “Como diretor, não quero dar respostas ou indicar o que é certo ou errado, mas, na medida em que o documentário oferece um leque de visões, opiniões, conceitos e memória sobre a época discutida, eu certamente espero que auxilie o espectador interessado em um entendimento maior sobre o período em questão. Espero também o filme que sirva de ponto de partida para que se estude mais profundamente esse tema. Para mim isso já seria uma grande vitória.” (LITEWSKI, em entrevista ao site cineclick.com.br)
As entrevistas, sem dúvida, guiam o filme. Mas um documentário apenas com isso seria monótono e não chamaria tanta atenção. Assim, para gerar um contraponto e ajudar na reflexão do publico, há cenas de filmes de ficção, que são inseridas como que para ilustrar o que estava acontecendo na época no Brasil.
O filme que é usado principalmente para ilustrar a morte do personagem é o “Pra Frente Brasil”, que é de 1982, ou seja, foi produzido em plena ditadura, por Roberto Farias. Esse filme é uma ficção cuja história fala sobre o que está acontecendo com o Brasil enquanto a população está prestando atenção nos jogos da copa do mundo de 1970. É interessante notar nesse filme como as referencias as militares são mínimas e não há uniformes dos mesmos em nenhum momento do filme. O único ‘coronel’ que aparece no filme está apenas com uma roupa verde, quase da mesma cor que os uniformes do exercito.  O diretor Roberto Farias aparece no filme ‘Cidadão Boilesen’ contando como quis fazer um filme que não sofresse censura, porém no dia seguinte da estréia, este foi censurado. Ainda nessa entrevista, nos conta que o nome do empresário no filme “Pra Frente Brasil”, que se recusa a ajudar o Antonio Fagundes a encontrar seu irmão e confessa ajudar financeiramente a tortura, foi baseado no nome do Boilesen, assim qualquer semelhança não foi consciência. Ele conta que mesmo na época já existia os rumores e ele quis fazer uma ‘homenagem’. Celso Amorim, na época presidente da EmbraFilmes, e a pessoa que aprovou o financiamento do filme “Pra Frente Brasil”, diz em entrevista no filme “Cidadão Boilesen” que teve que renunciar ao cargo assim que o primeiro filme foi ao ar, em 82.
Para se diferenciar dos outros documentários, Chaim ainda faz uso da leitura da peça “Sonata Tropical”, do dramaturgo Roberto Elisabetsky. Os atores Paulo Betti e Tuna Dwek que realizam essa “ficção” dentro do documentário. Essa peça tem como temática a intervenção dos empresários na época da ditadura justamente para deter as lutas armadas. A peça foi escrita depois da experiência do dramaturgo, que estava passando pelo local onde aconteceu o assassinato do empresário.
Durante todo o filme percebemos duas visões de mundo, uma que denuncia o personagem, chamando-o de torturador, financiador da ditadura e outras coisas, mas em seguida permite-se entrevistas com pessoas como o filho, amigos próximos ou representantes de empresas americanas que defendem suas ações como necessárias para manter “a paz no país”. Percebemos que na primeira metade do filme o personagem é mais simpático, uma criança normal, um cara que atingiu seus objetivos vindo ao Brasil e se tornando diretor de uma empresa tão grande e poderosa como a Ultragás – maior empresa de gás do Brasil à época. Já na segunda metade do filme, somos apresentados a um lado mais obscuro do personagem, as ‘provas’ que levaram a resistência o colocar na lista e posteriormente assassiná-lo.
A imagem de Henning está sempre sendo contraposta durante todo o tempo no filme. Uma das entrevistas mais interessante é com a Helga Mohr uma arquivista do arquivo municipal de Fredericksenberg que abre o boletim da época de colégio e mostra como ele era apenas mais um aluno regular. Ainda tinha uma observação nesse boletim, só mostrada na segunda metade do filme, em que ele teria participado de um incidente durante o tempo escolar. Foi um caso simples, que chamou a atenção do professor o suficiente para reportá-lo e leva o espectador a pensar se desde criança ele já não era um tipo de torturador.
Durante todo o filme a imagem de Boilesen é construída e desconstruída como um mito, um pessoa além do seu tempo, um sociopata que tortura pessoas.
Um contraponto bem forte nesse filme é entre o Carlos Lamarca, um ex-capitão do exercito que desertou e virou um líder da resistência a ditadura, e o Boilesen, um empresário estrangeiro, que vem ao Brasil, assume um cargo importante em uma empresa de base no país, financia a ditadura militar chegando a participar e trazer equipamento para facilitar a tortura. Esses dois personagens são vistos e colocados como opostos nesse filme. Percebendo nas entrelinhas, vimos como Lamarca era o herói da resistência, enquanto Boilesen era um sociopata, com um grande lado negro.
Há ainda no filme a presença de propagandas militares e músicas da época, sempre com imagens contrastantes. A música é para levantar o astral do povo, e as imagens são da polícia acabando com as manifestações. É possível perceber que o cineasta queria produzir um filme o mais neutro possível, permitindo a fala de várias partes envolvidas, porém percebemos também que o caráter de denuncia acaba prevalecendo.
Durante o filme é deixado claro que o Boilesen era apenas um nome no meio de muitos outros, ou seja, sem o apoio do empresariado da época, seria impossível para os militares darem o golpe e se manterem no poder por tanto tempo.


Bibliografia:
·         NICHOLS, B. Introdução ao Documentário. 2006 Editora Papirus.